Em 8 de outubro, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ordenou que o senador Flávio Bolsonaro, candidato a presidente que enfrenta o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno deste domingo, apagasse publicações em redes sociais que ligavam Lula ao Primeiro Comando da Capital (PCC), facção que o governo dos Estados Unidos classifica como “Organização Terrorista Estrangeira”.
Mas Lula tem ligação com figuras do PCC por meio de seu contador, João Muniz Leite, que fez as declarações de imposto de renda do presidente, cuidou por 14 anos da contabilidade de Roberto Teixeira, advogado de longa data de Lula, cuida da contabilidade de Fábio Luís, filho de Lula, e que, segundo o Ministério Público de São Paulo, ajudou a facção a lavar dinheiro. O escritório de Muniz Leite fica no mesmo prédio onde funcionavam empresas do filho de Lula.
Dividir um contador com figuras do PCC não significa que o PCC controle Lula, que protestou com veemência contra a decisão do governo americano de classificar o PCC como “organização terrorista”.
Mas o tribunal foi longe demais ao afirmar que não havia base factual ligando Lula ao PCC. Até a CNN Brasil, que críticos de Lula consideram simpática a ele, republicou uma reportagem do Estadão com o título “Contador ligado a Lula é suspeito de lavar R$ 16 milhões em loteria com PCC”.
Além disso, o Ministério Público de São Paulo denunciou neste mês Senival Moura, vereador paulistano do Partido dos Trabalhadores (PT), e outras 20 pessoas por lavagem de dinheiro do PCC por meio da Transunião, empresa de ônibus de São Paulo, segundo reportagem do BNews São Paulo de 2 de outubro. Os promotores o chamaram de “peça central” da empresa; o Metrópoles, ao noticiar sua prisão em junho, o descrevera como “um líder oculto” dela. Seu advogado, Márcio Sayeg, disse que ele “jamais integrou organização criminosa, jamais manteve vínculo com o PCC”.
E o nome do PT já havia aparecido antes em casos do PCC. Em 2014, a executiva estadual do PT em São Paulo expulsou o deputado estadual Luiz Moura depois que a polícia o flagrou em uma reunião com suspeitos de integrar a facção. E em 2019, investigadores gravaram, em um grampo, um chefe do PCC dizendo: “O PT tinha diálogo com nois cabuloso, mano”.
O ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, que ordenou a censura em massa de aliados de Bolsonaro e que está implicado em um amplo escândalo de fraude bancária, supervisionou a censura da ligação Lula-PCC em 2022.
No dia do primeiro turno da eleição presidencial de 2022, Moraes ordenou que o site O Antagonista removesse uma reportagem segundo a qual o líder do PCC, Marcola, declarara voto em Lula em interceptações da Polícia Federal. A reportagem citava Marcola dizendo que Lula “é melhor [que Bolsonaro], mesmo sendo pilantra”.
Moraes classificou a reportagem como “fato sabidamente inverídico, com grave descontextualização”, mas não disse que a gravação era falsa. Escreveu que “não se constata qualquer declaração de voto de Marcola no candidato Luiz Inácio Lula da Silva” e que os diálogos “apresentam apenas conotação política”. Jovem Pan, Terra e as contas de Jair Bolsonaro receberam a mesma ordem, e cada um ficou sujeito a multa de R$ 100 mil por dia caso mantivesse a reportagem no ar.
O Antagonista repudiou a decisão, reafirmou a veracidade das informações publicadas e disse que recorreria ao Supremo Tribunal Federal. Até 20 de outubro de 2022, cerca de 60 conteúdos haviam sido removidos a pedido de Lula.
Antes, em julho de 2022, Moraes, então presidente em exercício do TSE, havia ordenado a remoção de conteúdos que ligavam Lula e o PT ao PCC, entre eles um vídeo sobre o assassinato, em 2002, de Celso Daniel, prefeito petista. Seu fundamento foi o Ministério Público. Escreveu que “é fato conhecido e amplamente divulgado que o Ministério Público de São Paulo encerrou definitivamente as apurações, não havendo notícia do envolvimento do Partido dos Trabalhadores ou de seus membros”, e que “esse contexto evidencia, com clareza e objetividade, a divulgação de fatos sabidamente inverídicos”. A petição de julho veio do PT, cujos advogados incluíam Cristiano Zanin Martins, advogado de defesa de Lula. Lula nomeouZanin para o Supremo, e Zanin tomou posse em 3 de agosto de 2023.
Mas o mesmo Ministério Público fez uma busca na casa e no escritório do contador de Lula três anos depois. E um mês antes de Moraes assinar aquela decisão, o Estadão havia noticiado que o homem que fazia as declarações de imposto de renda de Lula dividira um prêmio de R$ 16 milhões da Mega Sena com um traficante do PCC.
Depois de uma operação de busca em setembro de 2025, parte de uma investigação chamada Operação Spare, os promotores afirmaram que os autos não deixavam “dúvidas da participação ativa de João Muniz nas estratégias de lavagem de dinheiro da organização criminosa”. Três anos antes, em depoimento no caso da loteria, Muniz Leite admitiu que um fornecedor de drogas do PCC fora seu cliente e “negou participação na lavagem de dinheiro do crime organizado”.
Muniz Leite é suspeito de lavar dinheiro para Anselmo Becheli Santa Fausta, o Cara Preta, fornecedor de drogas do PCC, e em 2021 entrou na mira da polícia depois de receber 55 prêmios de loteria em um único ano. Em abril de 2024, dados da Polícia Federal mostravam que ele e a mulher haviam ganhado impressionantes 640 vezes em diferentes loterias. A Receita Federal concluiu que, mesmo com os prêmios, os rendimentos dele não eram compatíveis com a renda bruta de suas empresas.
Santa Fausta foi morto em 2021. Em depoimento à polícia noticiado pelo Estadão, Muniz Leite disse que foi o delator do PCC Vinícius Gritzbach, assassinado em 2024, quem o apresentou a Cara Preta. Em abril de 2024, o grupo de combate ao crime organizado do Ministério Público fez de Muniz Leite alvo de uma investigação sobre a infiltração do PCC em empresas de ônibus de São Paulo.
A Operação Spare, em 25 de setembro de 2025, foi a terceira aparição de Muniz Leite em um caso do PCC em quatro anos. Seu alvo principal, Flávio Silvério Siqueira, o Flavinho, é acusado pelos promotores de coordenar uma rede de laranjas em postos de combustíveis, casas de jogos, imóveis e motéis. Uma fintech chamada BK Bank era o outro núcleo do esquema, disseram os promotores.
Muniz Leite é investigado por ter feito as declarações de imposto de renda de Flavinho e de duas pessoas chamadas Adriana Siqueira de Oliveira e Eduardo Silvério. “Análises da Receita Federal indicam que o contador era comparsa de Flávinho”, noticiou o Metrópoles, e a investigação apontou que ele “teria atuação ativa nas estratégias para ocultar um aumento patrimonial suspeito dos investigados”.
Seus advogados, Jorge e Marcelo Delmanto, responderam que o escritório “teve como cliente, um dos investigados e duas empresas pertencentes a este”, “atuando até o ano de 2020”, e que “desde 2020 não há qualquer vinculação comercial com qualquer dos investigados”, o que, segundo eles, a própria busca e apreensão comprovou ao não encontrar vínculo recente.
O Metrópoles noticiou que o filho do presidente teria rompido com Muniz Leite no ano anterior, mas registros bancários mostram que não. Em março, o SBT News noticiou que registros bancários obtidos por uma comissão parlamentar mista de inquérito sobre fraudes no INSS mostravam que Fábio Luís fez quatro transferências de R$ 1.800 para o contador em 2025, e que “três delas ocorreram após João Muniz ter sido alvo do MP paulista, em setembro daquele ano, no âmbito da Operação Spare”.
À época das investigações sobre a relação de João Muniz com o PCC, “o Ministério Público de São Paulo considerou que o contador havia rompido relações com a família do presidente”, escreveu o SBT. Marco Aurélio Carvalho, advogado do filho, disse ao SBT que Muniz Leite é contador de seu cliente há mais de 20 anos.
A CPMI também descobriu que o filho de Lula movimentou cerca de R$ 19,5 milhões em uma conta bancária entre 2022 e 2026. Esse valor incluía três transferências feitas pelo pai, que somam cerca de R$ 721 mil. A defesa do filho afirmou que o dinheiro recebido do pai corresponde a adiantamentos de herança e ressarcimento de despesas, de origem legítima.



